
Eu me perdi,
Por entre fumaças e carnavais eu me perdi.
Escolhi fantasias e máscaras ...
Dancei valsa negra num castelo antigo, com cores cinza
Me perdi no banquete de mim,na mesa do rei, no jogo de talheres de prata eu me perdi.
Comi utopia ao invés de carne.
Bebi os sonhos imperiais ao invés do melhor vinho que serviam.
E me entorpeci, dancei com o Bôbo da Corte, e fui expulso do sonho.
Me perdi em quantidade, em conteúdo.
Por entre camadas, vísceras e sangue eu me perdi.
Por entre florestas, neblinas e mistérios.
E na lamúria da neve e do frio eu vi coisas e ouvi sons,
Conheci monstros e tentei fugir deles ...
E na fuga rasguei minha roupa, perdi moedas, perdi pensamentos.
Eu me perdi em tormentos, em gritos verde musgo e acordei.
Ainda meio que perdido, ainda meio que antigo, ainda meio que querido, acordei perdido.
Por entre quartos, ventos e quadros.
Por entre escadas, praias e rumores eu me perdi.
Me perdi em sabores, cheiros e cores.
Na amargosa da minha alma que amargou o meu viver.
Me perdi na cama fria, na escrivaninha, na sala vazia.
Andei milhas, com pés descalços e com ombros largos.
Me perdi por afagos e falsas carícias,
Me perdi ouvindo vozes e sussurros mortais,
Me perdi nos apertos de mão, silenciosos e sem muito a dizer.
Nos olhares de amigos, de conteúdo vazio, nos reflexos mesquinhos de cada um que me notou.
Me perdi nos desejos de terceiros, que nunca foram meus e nunca serão de ninguém.
Me perdi em aplausos, em vibração fulgaz.
Me perdi nos palcos, nos corredores da vida.
Me perdi como baratas no ralo, e ratos no porão,
Eu me perdi.
Perdi ao tentar solucionar, ao beber um licor.
Me perdi quando olhei janelas, e fotografei o eterno.
Ao me separar, ao sair da realidade eu me perdi.
Me perdi em órbitas lunares, nucleares e afetivas.
Me perdi na rua de pedras, escura e fria a caça de lobos ...
Lobos famintos de mim, famintos da minha pureza .
Lobos que dilaceraram minha alma, que pinotearam a minha morada, minha carne podre dada por ancestrais.
Me perdi na caça de um assassino, querendo ser vítima, querendo morrer.
Querendo padecer de sofrimento para Dalí resplandecer de entusiasmo da quase-morte ou da quase-vida.
Eu me perdi nos piores pensamentos, nos devaneios de mim.
Me perdi na sujeira do mundo, no fundo do fundo.
No meu EU que não foi poético, que não foi correto, que não teve razão.
Me perdi na busca da felicidade, no sarcasmo de quem me observava.
Me perdi em dentes, no sorriso alheio,
Me perdi ao tentar achar a minha sobra, o que ainda me fazia pulsar ...
Me perdi ao tentar morder meu próprio coração como a maça que Eva mordeu.
Cheia de curiosidade, cheia de luxúria e vontade.
Me perdi na dobradiça maciça que sustenta meu corpo e minha alma.
E agora estou com sobras de mim e ainda perdido como jamais estive antes.
(Felipe Monda. Todos os direitos reservados ao autor)






